Santa Marta: o que aconteceu na primeira conferência global sobre o fim dos combustíveis fósseis
- The Climate Reality BR

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De 24 a 29 de abril de 2026, líderes de 57 países se reuniram na Colômbia para debater o que nunca havia entrado na pauta das cúpulas climáticas tradicionais: como deixar de vez os combustíveis fósseis.
Durante seis dias, a cidade colombiana de Santa Marta recebeu a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis — um evento histórico que nasceu de uma lacuna que perdurava há décadas nas negociações climáticas globais: a ausência de um espaço onde os causadores da crise climática pudessem ser discutidos abertamente, sem os filtros do lobby fóssil.

Coorganizado pelos governos da Colômbia e dos Países Baixos, o encontro reuniu representantes de governos, cientistas, sociedade civil e organizações multilaterais em torno de uma única pergunta central: não mais se é necessário deixar os combustíveis fósseis, mas como isso vai acontecer — e a serviço de quem?
O The Climate Reality Project esteve presente em Santa Marta, com nossa filial da América Latina representando a organização. Este artigo é um balanço do que aconteceu, do que ficou em aberto e do que isso significa para o trabalho que fazemos
Por que Santa Marta foi diferente?
Durante três décadas, as negociações climáticas globais concentraram esforços na redução de emissões — mas raramente enfrentaram a causa raiz do problema: a expansão contínua da produção de petróleo, gás e carvão. A influência da indústria fóssil nos espaços multilaterais contribuiu para esse impasse, diluindo metas e postergando decisões.
Santa Marta nasceu como uma resposta a essa lacuna. Coorganizada pela Colômbia e Países Baixos fora da estrutura da UNFCCC, a conferência criou um espaço deliberadamente diferente: voltado para países comprometidos com a transição, sem a presença de atores que historicamente travaram o avanço dessas discussões.
O resultado foi um debate inédito — não mais sobre se os combustíveis fósseis precisam ser eliminados, mas sobre como isso deve acontecer: com quais instrumentos, em que prazo e com quais salvaguardas para os países mais vulneráveis.
O que aconteceu nos seis dias de conferência?
A programação foi organizada em torno de três frentes de trabalho, que orientam o chamado Processo de Santa Marta:
Elaboração de mapas nacionais do caminho para a transição energética, integrados às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) dos países.
Abordagem da dependência macroeconômica dos combustíveis fósseis e da reforma da arquitetura financeira global.
Reequilíbrio do comércio e do investimento internacional para viabilizar a descarbonização.
Com o envolvimento de povos indígenas e comunidades tradicionais, a "Declaração dos Povos por uma Transição Rápida, Equitativa e Justa para um Futuro Livre de Combustíveis Fósseis" foi lançada na véspera da cúpula. O documento reúne as principais demandas pelo fim dos combustíveis fósseis de movimentos sociais, povos indígenas, comunidades da linha de frente, sindicatos e ativistas de todo o mundo, e consolida uma agenda política que clama por mudanças estruturais no modelo energético global, com base na justiça climática e na garantia de direitos.
Principais resultados
Apesar das críticas à organização — que incluíram restrições de visto para participantes africanos e incertezas quanto à forma como os documentos da sociedade civil seriam incorporados ao processo oficial — a conferência produziu avanços concretos em três frentes.
1. Um painel científico dedicado à transição energética
Foi criado o Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET, na sigla em inglês), reunindo mais de 400 pesquisadores de todo o mundo. O painel nasce como resposta direta a uma convocação do presidente Lula na COP30, em Belém, e tem como missão traduzir o conhecimento científico em políticas concretas de abandono dos combustíveis fósseis. Sua sede ficará na Universidade de São Paulo (USP), e seus relatórios serão publicados anualmente até 2035.
2. A segunda conferência confirmada — e com simbolismo poderoso
Tuvalu e Irlanda serão os coanfitriões da segunda edição, prevista para ocorrer no Pacífico em um ano. A escolha de Tuvalu tem um significado climático imenso: o país insular é um dos mais ameaçados pela elevação do nível do mar, com mais de 80% de sua população já tendo solicitado vistos de migração à Austrália. Levar a conferência ao Pacífico é uma declaração política sobre quem paga o preço mais alto pela crise que não criou.
3. O Processo de Santa Marta como mecanismo permanente
Os 57 países presentes convergiram em torno de um consenso: é preciso acelerar a cooperação internacional por meio de mapas de caminho nacionais e regionais, alinhamento das políticas comerciais e soluções para as chamadas "armadilhas financeiras estruturais" que prendem países dependentes de receitas de combustíveis fósseis. O processo criado em Santa Marta é contínuo — e a conferência de 2027 vai aprofundar esses compromissos.
O que ficou em aberto?
Santa Marta foi um avanço histórico — mas um avanço com limitações claras, que precisam ser nomeadas.
A conferência operou fora da ONU, e não está claro ainda qual será seu impacto real nas negociações climáticas tradicionais. A ausência de um mecanismo vinculante — ou seja, de regras com força legal para cobrar os países — permanece o principal obstáculo à agenda de transição global.
Um elemento novo e poderoso entrou nesse debate: a Opinião Consultiva do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), publicada recentemente, confirmou que os estados têm obrigações legais de proteger o clima — incluindo o enfrentamento da produção, do consumo, do licenciamento e dos subsídios aos combustíveis fósseis. Em outras palavras: novos projetos fósseis não são apenas perigosos — eles correm o risco de violar o direito internacional. Santa Marta aconteceu nesse novo cenário legal, o que eleva significativamente a pressão sobre os governos.
É nesse contexto que ganha força a proposta de um Tratado Global de Combustíveis Fósseis — uma iniciativa liderada pelo Sul Global, já apoiada por 18 países, que busca criar um marco jurídico vinculante para gerir a transição dos combustíveis fósseis com equidade. O tratado preveria mecanismos concretos, como um Fundo Global de Transição Justa, alívio de dívidas e proteções contra litígios movidos pela indústria do petróleo. Avançar essa proposta foi um dos objetivos centrais de Santa Marta — e a segunda conferência em Tuvalu deve aprofundar as negociações.
O Brasil foi lembrado em Santa Marta como o iniciador da discussão dos mapas do caminho — mas também foi cobrado: o país acumula quase três meses de atraso na entrega das diretrizes para o próprio mapa, ao mesmo tempo em que expande a exploração de petróleo, inclusive na Foz do Amazonas. A contradição foi nomeada e não passou despercebida.
Outro ponto de atenção é a ampliação da coalizão. Os organizadores já sinalizaram que será preciso construir pontes com países que não participaram de Santa Marta — em especial a China, mas também nações africanas que se opuseram ao mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis na COP30, em Belém. Sem esses atores, o processo corre o risco de reunir apenas os já convertidos.
O que o Climate Reality levou a Santa Marta
Como parte do processo preparatório de Santa Marta, o The Climate Reality Project enviou contribuições escritas com três propostas que atacam pontos centrais da crise.
1. Reforma dos subsídios aos combustíveis fósseis
Petróleo, gás e carvão são artificialmente baratos porque recebem enormes incentivos públicos. Nossa proposta é simples: encerrar esses subsídios e redirecionar esses recursos para renováveis, eficiência energética e transição justa — com requalificação de trabalhadores e diversificação econômica local.
2. Reduzir a influência do setor fóssil nos espaços de decisão internacional
Isso significa criar regras claras para quem ocupa posições de liderança em fóruns multilaterais — com transparência, mitigação de conflitos de interesse e centralidade da ciência. Não dá para deixar a raposa tomar conta do galinheiro.
3. Não tratar gás fóssil como combustível de transição
Essa narrativa abre espaço para greenwashing e para novos investimentos em infraestrutura que prendem países a emissões por décadas. A lógica é direta: não dá para sair dos fósseis com fósseis.
O que isso significa para o Climate Reality e para nossa rede?
Santa Marta é diretamente relevante para o trabalho que o Climate Reality Project Brasil vem fazendo. As três propostas que enviamos ao processo preparatório da conferência — reforma dos subsídios aos combustíveis fósseis, redução da influência do setor fóssil nos espaços multilaterais e rejeição do gás como combustível de transição — estiveram no centro dos debates.
Os desdobramentos da conferência também alimentam diretamente nossa agenda de financiamento climático. Como rede de Líderes presente em todas as regiões do Brasil, temos um papel importante nesse momento: traduzir o que foi acordado em Santa Marta para o contexto local, cobrar o cumprimento dos compromissos brasileiros e amplificar as vozes que ficaram à margem das negociações — em especial as comunidades diretamente afetadas pela expansão fóssil.
Para continuar acompanhando
Santa Marta provou que a pressão funciona — mas ela precisa chegar de todos os lados. Enquanto isso, mais de US$ 1 trilhão por ano ainda é destinado a subsidiar petróleo, gás e carvão. Assine a carta aberta do Climate Reality pedindo o fim desses subsídios e faça sua voz chegar aos governos que ainda hesitam. Assine a carta aberta: Phase Out Fossil Fuels
Fontes consultadas
• Greenpeace Brasil — Conferência de Santa Marta é marco importante para transição energética global





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