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Líder da Realidade Climática, Guilherme Tampieri é destaque do mês e denuncia a política por trás dos desastres climáticos

  • Foto do escritor: The Climate Reality BR
    The Climate Reality BR
  • há 5 horas
  • 3 min de leitura

Para muita gente, desastres climáticos ainda são tratados como eventos inesperados, episódios trágicos, porém inevitáveis. A análise de Guilherme Tampieri aponta exatamente o contrário. Líder da Realidade Climática e especialista em políticas públicas, ele é o destaque do mês ao trazer uma leitura direta e incômoda: o que chamamos de desastre, muitas vezes, é resultado de negligência política.


A reflexão parte de seu artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, intitulado “Desastres climáticos no verão não são mais surpresa: são o resultado da negligência política”. Nele, Tampieri argumenta que o Brasil já atravessou uma mudança de paradigma: os eventos extremos deixaram de ser imprevisíveis e passaram a ser recorrentes, com impactos cada vez mais intensos e conhecidos.


Na prática, explica, a crise climática deixou de ser uma projeção futura e passou a ser uma experiência cotidiana. “A ciência já mostrou que não estamos mais esperando as mudanças climáticas. Estamos vivendo elas”, sintetiza. Recordes de temperatura, chuvas mais intensas, elevação do nível do mar e eventos extremos sucessivos compõem um cenário que já não pode ser ignorado — e que é amplamente percebido pela população.


“Não agir diante de riscos conhecidos também é uma escolha política.”


Ao analisar por que eventos climáticos se transformam em tragédias, Tampieri aponta dois fatores centrais. O primeiro é a negação, cada vez mais insustentável diante dos dados e da realidade. O segundo, mais estrutural, é a inação. Mesmo com conhecimento sobre riscos — como áreas sujeitas a deslizamentos ou enchentes — decisões políticas frequentemente priorizam ações de maior visibilidade, deixando de lado medidas preventivas que poderiam salvar vidas.


Esse cenário se agrava quando se observa quem são os mais afetados. Para Tampieri, a crise climática expõe e intensifica desigualdades históricas. Populações vulnerabilizadas — como comunidades periféricas, indígenas, quilombolas, mulheres, crianças e idosos — enfrentam maiores riscos e possuem menos recursos para se adaptar e se recuperar. “A crise climática não é apenas ambiental. Ela é, sobretudo, uma questão de direitos humanos”, afirma.


Ao trazer o debate para o campo das soluções, ele destaca o papel estratégico dos municípios. Políticas climáticas locais, mapeamento de vulnerabilidades e planos de adaptação são ferramentas essenciais para reduzir riscos e fortalecer a resiliência das cidades. Mais do que isso, é necessário integrar essas ações a outras políticas públicas, como habitação, mobilidade e defesa civil, garantindo respostas coordenadas e eficazes.

“Precisamos assumir que nenhuma morte por eventos climáticos é aceitável.”


Para além das estruturas institucionais, Tampieri reforça a importância da mobilização social. Em um contexto onde a urgência climática muitas vezes é minimizada ou ignorada, manter o engajamento da sociedade civil é fundamental para pressionar por políticas mais ambiciosas. Ele propõe uma meta clara e provocadora: “morte zero” em decorrência de eventos climáticos, como um princípio orientador para ações de adaptação.


Outro ponto central de sua atuação é a defesa de uma governança mais inclusiva, que amplie a participação de populações diretamente afetadas pela crise climática. A chamada “diplomacia de base” surge como caminho para democratizar decisões e incorporar diferentes realidades na construção de soluções.


Ao longo de sua trajetória, Tampieri tem contribuído para fortalecer o debate público sobre clima e política no Brasil, conectando evidência científica, justiça social e ação prática. Sua análise não deixa espaço para neutralidade: diante de uma crise já instalada, a diferença entre risco e tragédia está, cada vez mais, nas escolhas que fazemos.



Guilherme Tampieri é Líder da Realidade Climática e Coordenador de Programas e Projetos de Clima e Política, doutorando em Relações Internacionais pela PUC-Minas, mestre em Geografia pela UFMG, com especializações em Gestão Ambiental e Administração Pública. É pesquisador da Fundação Alexandre de Gusmão (IPRI) e líder do Climate Reality Project Brasil.

 
 
 

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