Bonn: o financiamento climático foi o nó que travou a estrada para a COP 31
- Carolina Stavale

- há 4 horas
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De 8 a 18 de junho de 2026, negociadores de 194 países se reuniram na Alemanha para preparar a COP 31. Duas semanas depois, o recado era claro: sem dinheiro na mesa, a implementação do Acordo de Paris não sai do papel.
A Conferência de Bonn — nome popular para a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da UNFCCC, a SB64 — é a principal reunião preparatória do ano para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. É ali, longe dos holofotes das COPs, que os negociadores constroem os textos técnicos e tentam o difícil consenso que mais tarde vira decisão. Neste ano, Bonn foi também o primeiro grande teste político depois da COP 30 de Belém — e o resultado acendeu sinais de alerta para Antália, na Turquia, que sediará a COP 31 em novembro.
O The Climate Reality Project Brasil acompanha de perto a agenda de financiamento climático, um dos pilares do nosso programa Financiando uma Transição Justa. Este artigo é um balanço do que aconteceu em Bonn nesse front: o que travou, o que avançou apesar de tudo, e o que isso significa para o caminho até a COP 31.
Por que o financiamento dominou (e bloqueou) Bonn?
A conferência terminou perto da meia-noite de 18 de junho sem consenso em vários dos temas centrais da agenda. E, como quase sempre nas negociações climáticas, o financiamento foi a fonte de tensão que contaminou todo o resto.
A lógica é simples: praticamente toda ação climática — cortar emissões, proteger comunidades dos impactos, financiar a transição energética — depende de recursos. Quando os países desenvolvidos resistem a colocar dinheiro na mesa, as outras trilhas de negociação travam junto. Foi exatamente o que se viu na Alemanha.
O caso mais emblemático foi o do financiamento para adaptação. Países em desenvolvimento defenderam ampliar os recursos para ajudar comunidades, ecossistemas e economias a se protegerem dos impactos climáticos, enquanto países desenvolvidos resistiram à criação de novos compromissos financeiros. O impasse foi tão profundo que, na noite final, vários trilhos de negociação caíram na chamada Regra 16 — um dispositivo que, quando não há consenso, suspende a negociação, joga fora o trabalho daquela sessão e obriga a recomeçar do zero na sessão seguinte, que neste caso será a própria COP 31. Na prática, semanas de trabalho viraram pó.
O revisionismo do Norte — e uma cadeira vazia
Houve um elemento novo e preocupante em Bonn: a tentativa de reabrir o que já tinha sido decidido. Países desenvolvidos trabalharam para reinterpretar — e esvaziar — decisões que já tinham sido tomadas, e o episódio mais grave envolveu diretamente o financiamento.
Em Belém, a Decisão Mutirão da COP 30 estabeleceu um programa de trabalho para tentar atender à demanda dos países pobres por financiamento público. O natural seria que o tema virasse, a partir deste ano, um item formal de negociação para a COP. Mas os países em desenvolvimento foram pegos de surpresa ao chegar a Bonn: a agenda havia sumido. No fim da semana, o presidente da COP 30, André Corrêa do Lago, fez uma manobra inédita — enviou uma carta ao secretário-executivo da Convenção, Simon Stiell, pedindo a inclusão do tema na agenda da COP 31. Países europeus acusaram golpe regimental; Corrêa do Lago respondeu que apenas restaurava “o espírito da COP 30”.
Pairando sobre tudo isso, uma ausência. A própria Convenção do Clima da ONU enfrenta um aperto financeiro causado pela saída de seu maior financiador, os Estados Unidos. No relato da imprensa especializada, a cadeira vazia da delegação norte-americana nas salas de negociação foi o símbolo de Bonn — e seu efeito prático apareceu menos nas cadeiras do que no encolhimento das contribuições aos fundos da UNFCCC. Vários participantes alertaram para a tendência preocupante de declínio na provisão de financiamento climático, com falta de recomposição do Fundo de Perdas e Danos, do Fundo Verde do Clima e do Fundo de Adaptação.
O Roteiro de US$ 1,3 trilhão: um “menu de opções”?
Entre as discussões de financiamento, uma interessa especialmente a quem acompanha a transição para longe dos fósseis: o Roteiro Baku-to-Belém para US$ 1,3 trilhão. Ele nasceu do resultado da COP29, em Baku, onde os países desenvolvidos se comprometeram a prover US$ 300 bilhões por ano aos países em desenvolvimento, ao lado de uma meta “aspiracional” de pelo menos US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 — número amplamente criticado pelo Sul Global e pela sociedade civil por ser insuficiente diante das necessidades reais.
Em Bonn, vários participantes enfatizaram a urgência de passar das promessas para a implementação. Mas a discussão expôs a fragilidade do instrumento: a Arábia Saudita, falando pelo Grupo Árabe, descreveu o relatório do Roteiro menos como um plano detalhado e mais como um “menu de opções” do qual cada ator escolhe o que quiser — uma leitura ecoada por grupos da América Latina e Caribe e pela sociedade civil, preocupados que o foco nas obrigações dos países ricos se dilua.
O que avançou apesar de tudo
Bonn não foi só impasse. O tema que mais interessa à sociedade civil — a transição justa — teve um dos poucos resultados concretos. Avançou o Programa de Trabalho sobre Transição Justa (JTWP) e o delineamento do mecanismo criado em Belém, o BAM (Mecanismo de Belém-Antália), destinado a proteger pessoas e comunidades dos impactos da transição energética por meio de cooperação internacional, assistência técnica e capacitação entre países. Chegou-se a um acordo para encaminhar um esqueleto do mecanismo às negociações de Antália — ainda que, num detalhe quase surreal, o texto traga explicitamente a frase de que “este documento não é base para negociações”.
Houve outro deslocamento importante, mais de tom do que de texto. Para o WWF, Bonn sinalizou que a agenda climática está começando a mudar o foco das negociações para a implementação, com as iniciativas lideradas pela Presidência brasileira da COP 30 — transição para longe dos fósseis, fim do desmatamento, ampliação do financiamento — dominando os debates. Como ponderou Fernanda de Carvalho, do WWF Internacional, essa mudança das promessas para a implementação é bem-vinda, mas ainda é lenta, desigual e frágil, e as iniciativas precisam agora de governança clara, dinheiro real e responsabilização forte.
E, mesmo fora da agenda formal, o “elefante na sala” voltou a aparecer. No dia 12, a presidência brasileira realizou um evento concorrido para apresentar suas ideias sobre o mapa do caminho da transição energética, seguido dias depois por uma apresentação de Colômbia e Holanda sobre o Processo de Santa Marta — sinal de que a pauta do fim dos fósseis, debatida na histórica conferência de abril, veio para ficar no Acordo de Paris.
O que ficou em aberto
O balanço honesto de Bonn é de frustração. O Observatório do Clima classificou o resultado como decepcionante, marcado por incertezas políticas e dificuldades para avançar em temas fundamentais. Negociações sobre financiamento, agricultura, mitigação, adaptação e sinergias entre as convenções do Rio ficaram sem consenso ou foram transferidas para a COP 31.
Sobre o financiamento público internacional, especificamente, restou um impasse de fundo: se o tema terá um item de agenda e uma decisão própria na COP 31, ou se seguirá apenas como um diálogo — sem força para gerar compromissos.
Houve ainda um capítulo que merece atenção redobrada da nossa rede: o ataque à ciência. Delegados da União Europeia, da Suíça e de dezenas de países em desenvolvimento denunciaram “ataques coordenados” de um pequeno grupo de interesses ligados aos combustíveis fósseis, que tentaram retirar dos textos referências ao IPCC e à meta de 1,5°C. Em paralelo, China e Índia pressionaram para adiar a publicação do AR7, o próximo grande relatório do IPCC, o que poderia deixá-lo fora do segundo Balanço Global, em 2028. Defender a integridade da ciência climática deixou de ser pressuposto e virou disputa.
O que isso significa para o Climate Reality e para nossa rede
Bonn confirma o diagnóstico que orienta nosso programa Financiando uma Transição Justa: o financiamento é o elo que conecta todas as trilhas — e segue sendo a agenda com menos entregas concretas. O engajamento político existe e foi reforçado pela ampla participação dos países; o que falta é convertê-lo em recursos reais para mitigação e adaptação, justamente nos países e comunidades que mais precisam.
Para a rede de Líderes da Realidade Climática, presente em todas as regiões do Brasil, esse momento abre tarefas claras: acompanhar de perto o destino do financiamento público internacional rumo à COP 31, conectar a discussão global do Roteiro de US$ 1,3 trilhão ao debate sobre financiamento subnacional no Brasil, e defender publicamente a ciência climática num cenário em que ela passou a ser contestada nas próprias salas de negociação. A ponte entre Santa Marta, Bonn e Antália é, no fundo, uma só pergunta: quem vai pagar a conta de uma transição justa — e em que prazo?
Para continuar acompanhando
A estrada até a COP 31, em Antália, será curta e acidentada. O trabalho perdido em Bonn terá de ser refeito sob pressão, e o financiamento seguirá no centro de cada disputa. Acompanhe a cobertura do Climate Reality Brasil e fique de olho nas oportunidades de incidência da nossa rede nos próximos meses.
Participe também da mobilização para pressionar as lideranças da COP31 a assumirem compromissos concretos com a liderança climática global. Assine a petição:
Referências Bibliográficas
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