top of page

Artigo: O Banco Mundial bateu recorde no financiamento climático, mas abandonou a meta que tinha acabado de superar

Foto do escritor: Carolina  Stavale
Carolina Stavale
há 6 horas
4 min de leitura

Em 2020, o Grupo Banco Mundial destinou US$ 17,2 bilhões ao financiamento climático. Em 2025, foram US$ 39,2 bilhões, um recorde. Nesse intervalo, esteve em vigor a meta de destinar 45% de seus recursos ao clima, e o banco a superou: chegou a 48%. A meta funcionou. Por isso é tão difícil entender o que aconteceu em 29 de junho de 2026. O banco estendeu por tempo indeterminado o seu Plano de Ação sobre Mudança do Clima, o CCAP, mas abandonou justamente a meta de 45%, o número mais simples para qualquer pessoa verificar se as promessas estavam sendo cumpridas.


A pressão veio de um único país. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, disse que a meta distorcia a alocação de recursos e chegou a questionar o consenso científico sobre as mudanças climáticas. A maioria pensava diferente: 19 dos 25 diretores executivos do banco haviam defendido a continuidade do plano, assim como o G11+, grupo de países que tomam empréstimos da instituição, e mais de 90 organizações da sociedade civil. O banco afirma que continuará reportando seus números, e a Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA, na sigla em inglês), braço voltado aos países mais pobres, mantém a meta de 45% até 2028. Mas reportar não é se comprometer. Sem meta, não há como cobrar.


O recuo pesa muito além de Washington. O Banco Mundial responde por quase metade do financiamento climático dos bancos multilaterais destinado a economias em desenvolvimento, que atingiu um recorde de US$ 163 bilhões em 2025. O Roteiro Baku-Belém, que o Brasil ajudou a construir na COP 30, conta com esses bancos para ir além dos compromissos atuais. A poucas semanas da COP 31, em Antália, o maior deles sinaliza o contrário.


E mesmo os números recordes escondem um problema. Entre 2019 e 2023, dois terços do financiamento climático dos bancos multilaterais para países de renda baixa e média chegaram como empréstimos. A parcela de doações caiu para 6,7% em 2023, enquanto três quintos das economias de baixa renda estão em risco de superendividamento ou já nele. Em 2022, os países menos desenvolvidos e os pequenos Estados insulares pagaram US$ 59 bilhões em serviço da dívida e receberam US$ 28 bilhões em financiamento climático. O capital privado segue a mesma lógica: os bancos mobilizaram US$ 35 bilhões privados para países de renda baixa e média, contra US$ 80 bilhões para os de alta renda. Para o Sul Global, a pergunta não é só quanto dinheiro chega, mas em que termos.


Há também uma questão de coerência. No Brasil, a sociedade civil cobra do BNDES, dos bancos públicos e das agências de fomento metas claras de alinhamento ao Plano Clima, o plano nacional que orienta a ação climática do país. E esse foi o tema do Diálogo de Alto Nível "Financiando o Plano Clima: do compromisso à execução", que o The Climate Reality Project Brasil realizou em 22 de setembro, no Museu do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O encontro reuniu representantes do BNDES, da Finep, da Prefeitura do Rio, de universidades e da sociedade civil para discutir como o sistema financeiro público pode tirar o plano do papel. Seria contraditório exigir metas das nossas instituições e aceitar menos da maior instituição financeira de desenvolvimento do planeta. É também o que defende o policy brief De Santa Marta aos Bancos Multilaterais, publicado em maio de 2026 pelo The Climate Reality Project Brasil e pelo Centro Brasil no Clima, com recomendações para o Brasil e a América Latina a partir da primeira conferência internacional sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia.


O recuo chega no pior momento. Solar e eólica já são as fontes de eletricidade nova mais baratas na maior parte do mundo, e o caminho mais rápido para levar energia a quem ainda não tem passa exatamente pelas tecnologias que o CCAP foi criado para financiar. Ao mesmo tempo, a Corporação Financeira Internacional (IFC) e a Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (MIGA), braços do grupo que apoiam projetos privados, revisam as regras socioambientais que esses projetos precisam seguir. A sociedade civil pede que os riscos climáticos sejam públicos antes da aprovação e que nenhuma regra nova seja mais fraca que as atuais.


Em outubro, ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais dos países-membros se encontram em Bangkok, na Tailândia, para as Reuniões Anuais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, o principal fórum de decisão das duas instituições. Para esse momento, o The Climate Reality Project e uma coalizão global de organizações da sociedade civil apresentam demandas objetivas: restaurar a meta de financiamento climático, fortalecer as salvaguardas climáticas e prestar contas publicamente sobre os compromissos com as comunidades. E, olhando para Antália, ampliar os recursos concessionais e as doações, para que a transição dos países em desenvolvimento não seja paga com mais dívida.


No dia 8 de outubro, o The Climate Reality Project promove um encontro online aberto para discutir essa agenda e entregar uma petição aos diretores executivos do banco, incluindo quem representa o Brasil. A sessão para as Américas acontece às 19h30, no horário de Brasília, e as inscrições podem ser feitas pelo link. Recordes são bem-vindos. Mas sem meta, sem salvaguardas e sem doações, eles dizem pouco sobre o futuro. 



 
 
 

Comentários


bottom of page